Vou-do tudo que é meu no espaço-agora para sempre

A bola que roda no exército do coração foge de tudo o que é implícito na memória da cabeça de um alfinete. Eu já tentei esboçar os sentimentos de uma coisa redonda que mal se adequa ao paraíso, mas nunca consegui esboçar os sentimentos necessários que atravessam a matéria do pedaço de estrume preso na contramão de uma avenida que já foi muito movimentada e hoje é fantasmagórica. A mesma avenida que passou a carruagem do Rei que morava no fundo do Rio Nilo, o mesmo Rei que fez o mar vermelho se azular de tão exponencial que era o seu poder sobre as partículas de água. 

Ele foi capaz de modificar os átomos do meu corpo e me transformar no vapor que fecunda os aneis de Saturno, porque ele era inimigo de Vênus, e eu nem queria participar dessa briga interespacial, mas ele me obrigou a tomar um partido, a partir-me ao meio de todas as aberrações que ecoam no vazio de fora do mundo, me obrigou a olhar nos fundares dos olhos de seres intangíveis, assustadores e que eu jamais queria ter visto em toda profundeza de minha Existência.

Eu não queria mesmo, eu gritei, eu me amarrei naquele espaço entre a zebra e o cavalo, porque o que muda na infinitude do espaço é só uma forma, e essa forma não tem livre arbítrio, assim como a fôrma que me tornei após essa realeza se emergir do âmago da minha escassez e se tornar a manifestação mais ampla de todos os mundos que já existiram e existem e vão existir para sempre além da memória do espaço-agora.

Por que esse Rei me fez maldito quando eu só queria pertencer à terra? Não quero água, mas agora sou vapor. E isso diz mais sobre ele do que a formiga de Tanajura que entrou no buraco do meu olho, no fundo da minha pupila, e cresceu, como cresce a semente da morte, e cresceu para o meu cérebro, como um verme foge da arara azul que corta o céu toda tarde no fim do sol-pôr até explodir meus tímpanos. O Sol também nada tem a ver com isso, com sua briga entre Saturno e Vênus, por isso estou do lado do Sol. não quero mais estar do teu lado, seu perfídio estrume de água misturada ao sangue negro dos mares que você secou com sua respiração ofegante. Irei te esboçar no caroço de uma pálpebra estonteante por tomar o proveito de uma criança que berra ao som de um dilúvio da cor da morte. Eu sei que você sabe e não faz nada, mas o destino vai vingar toda lamúria. 

Você me mostrou todos os elementos que nunca mais vão existir, porque todos esses elementos sou eu, e você sabe disso, sempre soube, e saberá, porque a realeza que você construiu além dos horizontes das manhãs do dia entre o domingo e a segunda são opostas à carruagem do cavalo marinho que se escureceu de tanta dor que você o fez sentir.

Hoje eu vejo o amanhã além do futuro que você decidiu para todas as espécies das centelhas, e eu sei mais do que saberia há alguns segundos e a alguns séculos do que foi a partir do grito estridente da corneta em forma de céu. Engoli-a por completo como se fosse pólvora no pedaço de esponja marinha mais esdrúxula do que a peste avessa ao cabideiro. 

Deixe-me construir o mundo inteiro através dos dedos dos meus pés porque acima disso nada se faz sentindo. Por isso eu vou além das poeiras que emergiram do fim do mundo, para além dos cacos de espinhos das areias do deserto que foge ao limiar entre o eu e o Eu. Vou-do tudo que é meu no espaço-agora para sempre.

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