No espaço do bocejo tem uma entidade que permeia a transmutação do mundo pelos olhos, retina, pupila. Parece transcender através das palavras sobrepostas uma infinidade de realidades que ela ainda está viva, nem tão perto nem tão longe. Dos dedos corriqueiros que fazem tique e tique e tique e nada mais adentra o buraco de quando se passa por dentro de uma minhoca desabotoada no meio da avenida.
Chove, pode chover, que caia raios espaçados dentro do cérebro daquele ignóbil, que mal sei quem seja e você saber pouco importa, porque existe e deixar de existir não faz a atmosfera despejar chuva de ácido algum dentro do teu peito. Muito menos do meu. Do nosso, do mundo, fundido no núcleo, que explode ozônio, não o mundo de cá, pouco importa qual mundo, o mundo em que você está, da tua realidade, que o ozônio preenche tudo, chove tudo. Que o amor sequer sabe a replicação da retina, que os óleos das pálpebras da megalomania do teu contraste não sobe a camada fina que separa o daí do de cá. Que a minhoca esbraveja dentro do sutil comprimido e desinteressante gesto de berrar.
Não quero saber de ti. Você está cunhado nos fundares da minha consciência indesejada e quero que suma. Um por um, e vá, e para sempre. Jamais retorne, porque meus olhos não podem desenterrar a imagem que você plantou dentro da minha existência, que por mais que eu fuja e fuja você não sai da minha cabeça. E eu jamais saberei se essa cabeça vai sair de mim até na camada de ozônio que eu jamais queria saber da existência desse plano, planeta, planetário, do tudo que foi e pode voltar em chamas. Que jamais retorne você, nem você, nem você, nem você, nem você, nem você ad eternum você, até onde o eterno existe dentro de mim depois do passado, e que não volte nunca mais pro futuro-presente do que passou do momento até aqui. Suma, sim, suma sempre.
Viajo na cauda desse cometa cintilante de verde grotesco e chovo, sim chovo, não choro, porque não adianta, e de lá eu vejo aqui, tantas coisas que vão e eu tento não fazer vir, apenas permite ir, sem volta. Esboce, não apague, só faça, e deixe o tique-tique permear seus dedos através da extensão da sua existência que vai, e vai e deixe ir. Pelos braços, pelos dedos, pelos olhos, da fonte que desorganiza todas as sinapses que fogem da mega estrutura que caiu no fundo do abismo em que antes saiu aquele verme, um verme bem gordo, assustador, que medo, sinta o meu medo, olhe de frente, sem fim, e encare, de quando você sente uma coceira no seu corpo. Sabe aquela coceira? Naquele ponto específico, mas quando você coça, não sacia, É uma sensação de morte, porque aquela coceira se estende por aquela parte específica do seu corpo, logo acima do cotovelo, e você coça naquele ponto, mas não é ali que está a coceira, e por mais que você a coce, não sacia, e essa coceira se espalha, e você se desespera, porque seu corpo coça, mas a coceira não passa com o friccionar dos seus dedos, das suas unhas, da sua pele, e você esfrega, cada vez mais forte, e perfura-se, cada vez mais forte, e o sangue entre seus dedos, cada vez mais forte, porque aquela coceira não passa. Pelo amor de Deus, que pare de coçar dentro de mim o que não alcanço. Que o sangue enxugue esse torpor maligno que não posso sustentar. Viaje, além, procure outro corpo para coçar, procure outro abismo para entrar, me liberte de mim.
Escrevo em tela porque em dedos não seria possível. Deixo a cabeça fluir na pós-modernidade direto para as teclas, porque o manuscrito não se sustentaria. Pare de corrigir. Me corrijo e não devo. Pare. Agora. Jamais apague, jamais use o teclado backspace, está proibido. Se veja depois, se torne depois, a função do erro é fazer com que o errado se descontinue depois do fluxo. Não use jamais o deletar na sua vida. E deixe que tudo flua, porque não é apenas, mãos e dedos, é tudo. E o tudo vai direto pra tela.
Capaz que como pode na vida pós-moderna isso existir. No caderno… usei de novo, usei o deletar de novo e jamais posso fazer isso, e quase uso de novo, e de novo, porque o intuito do fluxo é deixar descontinuado sem se preocupar com o presente-agora, e deixe a cabeça permear tudo que precisa sem se preocupar, sem se preocupar com o presente-agora-depois-de-tudo e que siga, porque como eu dizia: A mão jamais consegue seguir a cabeça desse jeito, com tantas palavras por segundos, o esforço, o desenrolar, o debruçar, o escorregar, é isso, o escorregar da mão escrita no papel não consegue esboçar todas as palavras que surgem na mente de forma tão rápida assim, e se perde, eu penso aqui, e repenso, e se perde.
Usei o deletar de novo. e jamais posso fazer isso, porque é o aqui, o momento aqui, o famoso instante-já, que deve-se colocar em execução através do tempo em que ela não tinha o artefato da pós-modernidade de fazer o momento-já eterno e quase uso de novo o deletar. O momento-já eterno se estende no ciberespaço.
