12 de junho de 2025

Pensando mais pensamentos me vejo no limbo das coisas não feitas e na sensação dos afazeres devidos que se acumulam com a ânsia de acelerar o tempo do consumo de conteúdo e o desejo de ouvir na velocidade normal o podcast ou o vídeo que roda na tela. É um conflito de autocobrança porque eu já deveria estar estudando e alimentando o intelecto cotidianamente, com constância, e a velocidade dobrada serviria como um escape pra recuperar o tempo que na minha cabeça eu perdi. Por outro lado, consumir conteúdos e estudos na sua velocidade normal se faz subversivo, se contraria ao capitalismo tardio de consumo de tudo e de tempo.

Interessante também observar as inspirações ascendidas ao usufruir do intelecto alheio, somar as redes neurais do nosso repertório intelectual aos novos conhecimentos. Fico sempre saudoso dos conhecimentos acadêmicos, científicos, técnicos, mas preso no torpor da inércia. É aquele velho conflito do nosso cérebro poupar o gasto energético, que puxa o famoso papo de vício dopaminérgico (e que me traz algum sentido eventualmente).

Ouvindo agora a um podcast de tecnologia, IA e afins, me recobrei do incômodo de querer me privar do celular por dias ou semanas mas estar preso à tela, tanto pelos cabeções do Silício que nos forçam ao vício do movimento de cassino no feed infinito, e também pelo bem colocado recorte de classe exposto no episódio, que me brilhou a mente com todo o sentido do mundo. Quem pode se privar de ter um aparelho celular ou qualquer artefato computacional, é uma pessoa de classe muito elevada — isso no contexto de um cidadão envolto na classe média, não classes de extrema pobreza, miséria ou algumas populações originárias.

O que me faz achar cômico é que décadas atrás o sonho e o luxo era ter um smartphone, hoje em dia, o sonho é poder se abster de olhar pra um celular ou uma tela por mais de um dia inteiro e o luxo é não se preocupar com nada disso.

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